Ativação Uma Travesti é Feliz Aqui
A pesquisa nasce, inicialmente, com uma vontade em pesquisar, demarcar espaço e reconhecer os locais que marcam as mortes de mulheres trans e travestis, em primeira instância na cidade de Curitiba, e após, expandir para outras localidades. Ao decorrer do processo em entendimento quanto a reação das pessoas aos transfeminicídios/transfobia, percebo que os meios midiáticos divulgam tais crimes com ar de prazer, um desejo intrínseco em ver a destruição-apagamento de uma comunidade específica e, já comumente, negligenciada socialmente.
Sendo assim, começo a me sentir atingida e alvo de tais crimes. Então, passo a refletir sobre a presença-travesti no ambiente social e nas pluralidades noturnas e o quão prazeroso seria para esse grupo odioso ver e confirmar as vontades próprias em torno dessa questão brutal. Portanto, ao conversar com amigos, colegas e professores, tomo a decisão de transformar-inverter o projeto por completo. Já que vocês sentem vontade em não nos ver, você agora será obrigado a ver, ler e saber que ali, naquele mesmo lugar que você está, uma travesti é feliz.
Por sequência, penso como realizar a ativação e como ser entendida com clareza. Me desdobro então para os lambes e adesivos, materiais baratos de fácil aplicação e disseminação, dando liberdade para que o trabalho circule livremente entre pessoas, cidades, estados e países. Sendo assim, aplico os lambes inicialmente em cinco lugares de Curitiba, Pr: Gringo Dog, Bar do Nada, Oide, PF Casa de Estudos e DeArtes. Então questiono, o quanto te incomoda a felicidade de uma travesti? Esse lambe do oide - um izakaya em curitiba – evocou interações múltiplas com o projeto. Joyce, uma amiga e atendente do Oide, me contou que no dia seguinte ao que colei o lambe uma travesti paraguaia foi visitar o espaço, viu a afirmação colada-lambida no poste e falou que também seria feliz naquele lugar. ela conta que essa figura se apoia no poste, próximo ao lambe para beijar seu companheiro, a vontade-desejo é alcançada, ali ela eh feliz. Joyce também conta que no dia seguinte o lambe aparece primeiramente coberto por um papelão e, horas depois, rasgado. nesse mesmo dia percebo que um outro lambe colado em um poste há 600m na rua de cima também foi rasgado, mutilado – aplicado na PF Casa de Estudos. o quanto te incomoda a felicidade constante de uma travesti?
Ademais, Pouco tempo antes do lambe ser arrancado, Keiko - uma amiga e proprietária do estabelecimento - relata que duas mulheres passaram por ali. Ela, em frente ao bar conversando com alguém, nota a presença dessa vizinhança-olheira que pergunta se o lambe indicaria que ali seria um ponto de prostituicao. Keiko, embebida pela força-querer explica sobre o projeto, as questões originárias de demarcação antropológica-geográfica de locais onde uma travesti sente excitação, identificação e multiplicidade. Assim, provoco implicações quanto às tecnologias, vontades e desejos e me pergunto se toda vez que ando pela rua, se dia com minha face limpa e corpo vulnerável, se noite com uma bebida na mão e um cigarro na outra e paro numa esquina pra esperar meus amigos-amantes, o seu olhar me olha com labor. a minha presenca-vida significa aliviar o seu prazer comprado? redirecionado, você faria uma travesti feliz? Concluo então que, Uma Travesti é Feliz Aqui nasce de uma vontade-desejo em ocupar a rua e fazer ser vista a presença travesti em ambientes boêmios-cotidianos ao questionar as ambientações, o uso da rua e as incomodações quanto às convicções de pessoas que não reconhecem e/ou ignoram a presença social travesti, evidenciando então a partir de registros, reivindicação e criação de uma rede comunitária os locais que asseguram a existência travesti a partir da visualidade, contemplação e segurança. Criado por uma para todas, construindo uma cosmogonia cartográfica onde as minhas possam bradar com alegria. Desejo, com todo corpo, que travestis sejam felizes sempre, em todo espaço, com louvor.
